
Alison pode ter conseguido sua quota de atenção com seu debut em 2007, One Cell in The Sea, mas boa parte do encantamento inicial foi drenado pelas críticas à pretensão do trabalho da moça e por fim esquecido, numa suposta confirmação de que a era das rockers que teve seu apogeu em meados dos anos 90, já chegou ao fim e esse formato não tem mais espaço dentro da música sem que algo realmente estonteante seja apresentado. E fato é que apesar de fofinho, o cd da moça foi muito mais ou menos para tanta atenção: letras mais ou menos, arranjos mais ou menos, voz mais ou menos… tirando o ear candy que fechava o álbum, Borrowed Time, havia pouco ali que salvasse o álbum dos bocejos. E fique imaginando se a garota, que vendia seu piano numa tentativa de mostrar sua influência da banda Radiohead (mas se muito conseguia proximidade de um Coldplay circa A Rush Of Blood to the Head), tivesse esticado naquela fórmula, mais ligada ao violão e ao vocal que à truques que hoje já são lugar comum (vejam a inundação de sucessos piano-based dessa década e entenderão do que falo).
E foi com felicidade que comecei a ouvir Bomb In a Birdcage, já que não precisei de 30 segundos para notar que a coisa agora seria diferente. Ao invés de pintar uma imagem maior do que era capaz de sustentar, What I Woudn’t Do segue no caminho confortável que tornou a trilha de Juno um sucesso comercial: composição leve, abre o cd com a faixa mais simples já composta pela moça, segurada por um violão e a voz da moça ligeiramente narrativa, com um sutil trabalho de cordas fake-folkeando a coisa, mimicando truques do lo-fi. Se a descrição parece clichê/negativa, bem, a faixa uptempo é na verdade um trabalho mais convidativo em teoria do que parece.
E esse é sem dúvida alguma o maior trunfo da ruiva nesse álbum. Em pouco mais de 42 minutos de duração divididos em 11 faixas, Bomb In a Birdcage na teoria é apenas mais um álbum de uma cantora pouco distinguível, repleto de composições simples, com ares retrôs, atrelada a um violão/guitarra/piano e nada de original. Na prática, é um triunfo do uptempo nessa nova geração de herdeiras do rock dos 00’s, com faixas muito bem marcadas, vocais cristalinos, letras elegantes, refrões empolgantes e uma boa dose de preciosismo. What I Woudn’t Do traz ambas as descrições acima bem claras, e por sua característica mais enérgica, introduz New Heights, outra faixa carregada pelo piano do catálogo da moça, de forma diferente das baladinhas do seu álbum de estréia. Aqui, New Heights vem grandiosa de verdade, e o vocal da moça cede espaço aos instrumentos para que as marcações da faixa jamais soem empedradas, com mudanças constantes nos intrumentais sutis da faixa deixando-a viva até seu último segundo.
E esse encadeamento vitorioso é uma das virtudes de Bomb In a Birdcage. Cada faixa é uma preciosidade por si só, mas os encadeamentos costuram perfeitamente os diversos climas desenvolvidos dentro do álbum. E quando notamos que a primeira faixa lenta do álbum, Swan Song, está a apenas uma faixa de distância da enérgica Blow Away, palmas tem que ser concedidas pela transição suave executada pela faixa Happier, uma deliciosa composição onde piano e violão complementam a voz da moça e backing vocals complementam os intrumentais e a coisa vai ganhando camadas interessantes mesmo com seu tempo ligeiramente reduzido. E se a segunda metade do álbum apresenta composições mais opulentes, as transições que levaram até lá são sempre gentis e a composição dessa vez vem afiada, fazendo com que cada faixa funcione como escapismo mental puro e simples (mesmo a grandiosa Stood Up com seu orquestral opulente sobrevive à pretensão, sendo colocada devagar em nossas orelhas, o que torna a experiência mais palatável) ou como pequeno exercício analítico devido aos instrumentais intrincados (Novamente New Heights aqui, galera), já que mesmo que na verdade não haja nada de cair o queixo a execução é inteligente e mantém as faixas vivas e interessantes.
Alison num primeiro momento tinha o piano como maior aliado e bebia de Sigur Rós. Aqui seu maior aliado é a banda que a acompanha e seu cardápio tem débito alto à cantoras como Feist e Cat Power. Bomb In A Birdcage pode não ser único, pode não ser um stand out, mas como álbum é uma coletânea de pequenas gemas costuradas de forma inteligente trazendo sempre um prazer novo a cada audição, sem com isso ter que prender quem o escuta à conceitos externos ou idéias chamativas. Consegue isso sendo apenas um atestado de que boa música por si só já basta.
Nota: 8
Bomb In a Birdcage (senha: minte)



